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Conto Nelson Giusti
Consultor da Viva Tranquilo
A Entrevista

Ela chegou exatamente às nove horas. Vestia uma blusinha azul clara, leve, sem mangas e com decote generoso, que permitia entrever seus sensuais seios. A saia rodada, comprida até a altura dos joelhos, era branca, com listras azuis, de tonalidade um pouco mais escura que a blusa. Uma sandália branca, de salto baixo, compunha elegantemente o seu traje. O rosto lavado e sem qualquer maquilagem, estampava o frescor da juventude. Pequenos brincos e um cordão dourado, de fina bijuteria, eram seus únicos adornos.

Era, realmente, uma moça muito bonita. De estatura mediana, talvez um metro e sessenta. Os longos cabelos, de um castanho quase dourado lhe desciam em espirais até pouco abaixo dos ombros, acariciando alvas espáduas e mimoso pescoço. Belos olhos, igualmente castanhos, enigmáticos e expressivos, denotavam inteligência e sagacidade. O corpo bem proporcionado e de linhas marcantes, dava a harmonia final àquele maravilhoso conjunto.

Prudentemente, como se temesse adentrar a sala, ela permanecia na porta, imóvel, sobraçando os documentos pertinentes à entrevista. Ao meu aceno, aproximou-se vagarosamente e com um discreto sorriso, cumprimentou-me e polidamente, depôs os papeis sobre a mesa. Ofereci-lhe assento na cadeira à minha frente, onde se acomodou elegantemente, cruzando suas lindas e sensuais pernas, exibindo seus bem torneados joelhos.

O suave perfume que exalava, mal me chegava às narinas e tal a suavidade, mais parecia o aroma natural do seu corpo. Passei a examinar os documentos. Durante a leitura, enquanto meus olhos percorriam os papeis, ela me fitava, angustiosa, tentando adivinhar, pela expressão do meu rosto, qualquer indício de agrado ou reprovação.

Tentando disfarçar o nervosismo, seus ágeis dedinhos tamborilavam sobre uma pasta, que mantinha abraçada aos seios. O esmalte vermelho das unhas, em contraste com o verde da pasta, parecia pequenos insetos, bailando sobre a relva, em estranha coreografia. Seu currículo, no item escolaridade, era de fazer inveja a qualquer candidato. Formação acadêmica cursada em excelentes colégios e cursos complementares realizados em estabelecimentos de ótima reputação. Conhecia e manejava, todos os aparelhos do escritório moderno e ainda dominava, regularmente, o idioma inglês e espanhol. Nada havia sobre experiência anterior, tratava-se da primeira tentativa em conseguir emprego.

No cadastro, as informações diziam tratar-se de moça solteira, oriunda de família da classe media de baixa renda e que sua instrução fora custeada por bolsas, conquistadas por excelência escolar e também, pela ajuda de familiares.

Às vezes, eu levantava os olhos da leitura e a fitava. Ela, então, embaraçada, desviava seu olhar para os quadros expostos na parede, numa vã tentativa de esconder a tensão que a dominava. A palpitação do seu coração, bem como as ondas cerebrais, emitidas pela enorme expectativa, pareciam quase visíveis e audíveis, no silencio da sala. Quebrando esse torturante silencio, eu a olhei com involuntária ternura e com a voz, talvez carregada de exagerada doçura, perguntando-lhe:

-E então, minha menina, já está pronta para a entrevista? Estou notando alguma tensão nervosa, mas creia, isso é muito natural nessas ocasiões. Sirva-se de uma água, relaxe, um cafezinho também lhe faria bem.

Foi aí que algo de misterioso deve ter acontecido. Repentinamente, seus olhos adquiriram um brilho estranho, comprometedor e talvez até malicioso. E, com um sorriso encantador, mostrando seus alvos dentes de pérolas, agradeceu minha gentileza, confessando-se surpresa com o meu interesse.

Eu também havia sentido algo. Como aquela mocinha, instantes atrás tão frágil e insegura, agora se agigantava diante de mim, demonstrando uma inabalável firmeza e determinação? Que misteriosa química, provocara aquelas reações tão fora de propósito? Com quase trinta anos de prática, atuando como gerente de recursos humanos em grandes empresas, já havia realizado centenas e centenas entrevistas semelhantes, a maior parte com mulheres, sem que jamais desviasse minha atenção para algo diferente do meu objetivo principal e único, ou seja, o de melhor avaliação dos candidatos, selecionando, honestamente, os que convenciam ser os melhores, Até os pedidos de amigos, ou mesmo de colegas funcionários da empresa, para favorecer este ou aquele candidato, eram sempre desconsiderados.

Muitas jovens, já haviam sentado naquela cadeira. Algumas mais bonitas e até mais charmosas. É deveras difícil de se ignorar e mesmo de fugir dos encantos femininos. O apelo sexual está presente em tudo, principalmente na minha condição de elemento preponderante para a admissão de emprego. Já resisti, inúmeras vezes, a convites subjetivos e até explícitos, para encontros íntimos, em troca de favorecimento. Minha recusa sistemática em aceitar tais vantagens, já me granjeou a fama de puritano; de durão e até de outras, qualidades mais "pejorativas". Eu já havia alcançado o tempo de serviço para a merecida aposentadoria. O pecúlio da previdência oficial, somados aos rendimentos dos planos previdenciários particulares, resultava em valores mais ou menos semelhantes aos atualmente percebidos. O motivo do adiamento, sempre constante, do meu requerimento à aposentadoria, era sem dúvida, ao temor da inatividade e, principalmente, devido ao meu sádico prazer de sentir minha importância, quase onipotente, a decidir sobre as aspirações e o futuro de tanta gente.

Não sou nenhum santo. Casado a mais de vinte e cinco anos e pai de três filhos, já tive meus escorregões matrimoniais. Porém, nada de envolvimento emocional de relevância a ponto de ameaçar meu casamento. Foram apenas aventuras passageiras, de parceria com mulheres, absolutamente sem compromissos e que apenas satisfizeram o meu ego masculino.

Mas nada além disso. Nunca me arrisquei a comprometimentos emocionais, que pudessem causar qualquer dano à estabilidade do meu casamento.

E permanecemos assim por momentos, a nos fitar fixamente, em completo e comprometedor silêncio. Ainda que, meio constrangido e tentando desmanchar o clima perigoso que nos envolvia, quebrei, repentinamente, a cumplicidade do silencio e desajeitado, passei a explicar minha técnica em entrevistas com candidatos à admissão. Método por mim elaborado e ainda em fase de aperfeiçoamento, que consistia em não fazer pergunta alguma ao entrevistado. Ele deveria falar, livremente e sem qualquer interrupção, sobre suas pretensões salariais, planos de carreira, em como nos conheceu, porque nos escolheu, enfim, sobre tudo que lhe viesse à cabeça. Mesmo sobre assuntos, que no seu entender, lhe parecessem aleatórios. A principal finalidade do método, era a de deixar o candidato completamente à vontade, sem que perguntas, mal dirigidas, turvassem seu raciocínio e assim, provocasse a involuntária omissão de qualquer informação importante, para uma perfeita e competente avaliação. Perguntas imprescindíveis, por certo, seriam formuladas ao final da entrevista.

Ante sua resposta afirmativa, liguei o gravador e ela começou a falar.

Seus lábios carnudos, em movimentos graciosos, pronunciavam as palavras com suavidade musical. 
Era uma graça. Os vocábulos, empregados com inteligência, revelavam uma cultura gramatical invejável. A expressão do seu rosto e principalmente a dos seus olhos, pareciam relegar as palavras a um segundo plano, transformando-as, simplesmente, em meros acessórios da comunicação.

A questão sobre pretensões salariais, ela sabiamente, submetia-se aos padrões da empresa e suas aspirações de carreira, relegava ao futuro. Pretendia retomar os estudos, prestar vestibular e cursar faculdade da área clássica e se formar em Direito ou Filosofia. Aí então, pensaria bem melhor no assunto e traçaria suas diretrizes.

Por vezes, meigamente, seus olhos fitavam os meus, parecendo indagar qual o grau de aprovação, que eu lhe estaria dando, na avaliação das suas palavras.

Eu estava cada vez mais enfeitiçado. Imaginava-me envolto por aqueles braços brancos, trocando caricias pecaminosas, rolando sobre os lençóis, em alguma macia cama de motel. Minha atração por essa garota excedia em muito, o simples desejo sexual. Tratava-se de algo extremamente sério e como tal, deveria ser encarado, analisado e tratado com a devida importância.

E se o interesse por ela demonstrado no inicio, não passasse, apenas de uma suposição tola, criada na minha cabeça, como o lendário último canto do cisne? Afinal, quase trinta anos de diferença de idade, fazem pressupor a inexistência de qualquer interesse romântico. E se eu me atrevesse expor o que estava sentindo, ou ainda, se num gesto de ousadia, arriscasse algum contacto físico. Seria pedofilia? Não creio. Ela não é tão jovem assim. E o assédio sexual, exercido em função de cargo superior?

Fatalmente, isso seria caracterizado por crime grave, até hediondo, principalmente se cometido contra pessoas dependentes da autoridade hierárquica ou superior do autor. Até um presidente, quase fora deposto por esse crime.

E a repercussão, que por certo, se ecoaria em todas as camadas sociais. E a família, tanto a minha quanto à dela, como reagiriam? Na minha imaginação, eu já me via na tela de um telejornal, algemado e ladeado por policiais, que me seguravam numa ridícula preocupação pela minha eminente fuga. O apresentador informava que a Delegacia de Crimes Contra a Mulher, através de sua delegada titular, já havia encaminhado oficio a Interpol, solicitando informações sobre a possível ligação do criminoso, com uma rede internacional, conhecida como "Sexo Turismo" e também "Sexo Executivo" que atua nos mais importantes hotéis, no mundo inteiro. E as manchetes sensacionalistas: "Chefe de Pessoal de importante empresa, assediava, sexualmente, jovens candidatas a emprego, durante entrevistas em sala fechada". E ainda mais, "Policia investiga a ligação do acusado com Gang internacional do Sexo". Um horror.

Em que situação, minha outonal intenção romântica, fora me conduzir de forma tão patética. Estava completamente arrasado. Suando muito, apesar da refrigeração e um tanto perdido nessas conjecturas, dei por encerrada a entrevista. Agradeci, em nome da empresa, a atenção dedicada e elogiando muito o seu ótimo desempenho, despedi-me, polidamente e amargamente dispensei a moça. Infelizmente, a falta de experiência anterior era fator indispensável ao cargo, hoje alvo principal da seleção. Porém, sua entrevista foi considerada de excelente qualidade, bem como suas aptidões muito apreciadas. Estava tudo devidamente registrado, e oportunamente, a empresa a convocaria para nova seleção e até para admissão imediata. Foram as lacônicas explicações.

Assim que ela se retirou, trêmulo e ainda bastante emocionado, comecei a compilar os documentos, relativos ao requerimento da minha aposentadoria.

Estava com os olhos marejados...
 
  

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