Ela chegou exatamente às nove horas. Vestia uma blusinha azul
clara, leve, sem mangas e com decote generoso, que permitia entrever
seus sensuais seios. A saia rodada, comprida até a altura dos
joelhos, era branca, com listras azuis, de tonalidade um pouco mais
escura que a blusa. Uma sandália branca, de salto baixo, compunha
elegantemente o seu traje. O rosto lavado e sem qualquer maquilagem,
estampava o frescor da juventude. Pequenos brincos e um cordão
dourado, de fina bijuteria, eram seus únicos adornos.
Era, realmente, uma moça muito bonita. De estatura mediana, talvez
um metro e sessenta. Os longos cabelos, de um castanho quase dourado
lhe desciam em espirais até pouco abaixo dos ombros, acariciando
alvas espáduas e mimoso pescoço. Belos olhos, igualmente
castanhos, enigmáticos e expressivos, denotavam inteligência e
sagacidade. O corpo bem proporcionado e de linhas marcantes, dava a
harmonia final àquele maravilhoso conjunto.
Prudentemente, como se temesse adentrar a sala, ela permanecia na
porta, imóvel, sobraçando os documentos pertinentes à entrevista.
Ao meu aceno, aproximou-se vagarosamente e com um discreto sorriso,
cumprimentou-me e polidamente, depôs os papeis sobre a mesa.
Ofereci-lhe assento na cadeira à minha frente, onde se acomodou
elegantemente, cruzando suas lindas e sensuais pernas, exibindo seus
bem torneados joelhos.
O suave perfume que exalava, mal me chegava às narinas e tal a
suavidade, mais parecia o aroma natural do seu corpo.
Passei a examinar os documentos. Durante a leitura, enquanto meus
olhos percorriam os papeis, ela me fitava, angustiosa, tentando
adivinhar, pela expressão do meu rosto, qualquer indício de agrado
ou reprovação.
Tentando disfarçar o nervosismo, seus ágeis dedinhos tamborilavam
sobre uma pasta, que mantinha abraçada aos seios. O esmalte
vermelho das unhas, em contraste com o verde da pasta, parecia
pequenos insetos, bailando sobre a relva, em estranha coreografia.
Seu currículo, no item escolaridade, era de fazer inveja a qualquer
candidato. Formação acadêmica cursada em excelentes colégios e
cursos complementares realizados em estabelecimentos de ótima
reputação. Conhecia e manejava, todos os aparelhos do escritório
moderno e ainda dominava, regularmente, o idioma inglês e espanhol.
Nada havia sobre experiência anterior, tratava-se da primeira
tentativa em conseguir emprego.
No cadastro, as informações diziam tratar-se de moça solteira,
oriunda de família da classe media de baixa renda e que sua
instrução fora custeada por bolsas, conquistadas por excelência
escolar e também, pela ajuda de familiares.
Às vezes, eu levantava os olhos da leitura e a fitava. Ela, então,
embaraçada, desviava seu olhar para os quadros expostos na parede,
numa vã tentativa de esconder a tensão que a dominava. A
palpitação do seu coração, bem como as ondas cerebrais, emitidas
pela enorme expectativa, pareciam quase visíveis e audíveis, no
silencio da sala. Quebrando esse torturante silencio, eu a olhei com
involuntária ternura e com a voz, talvez carregada de exagerada
doçura, perguntando-lhe:
-E então, minha menina, já está pronta para a entrevista? Estou
notando alguma tensão nervosa, mas creia, isso é muito natural
nessas ocasiões. Sirva-se de uma água, relaxe, um cafezinho
também lhe faria bem.
Foi aí que algo de misterioso deve ter acontecido. Repentinamente,
seus olhos adquiriram um brilho estranho, comprometedor e talvez
até malicioso. E, com um sorriso encantador, mostrando seus alvos
dentes de pérolas, agradeceu minha gentileza, confessando-se
surpresa com o meu interesse.
Eu também havia sentido algo. Como aquela mocinha, instantes atrás
tão frágil e insegura, agora se agigantava diante de mim,
demonstrando uma inabalável firmeza e determinação? Que
misteriosa química, provocara aquelas reações tão fora de
propósito? Com quase trinta anos de prática, atuando como gerente
de recursos humanos em grandes empresas, já havia realizado
centenas e centenas entrevistas semelhantes, a maior parte com
mulheres, sem que jamais desviasse minha atenção para algo
diferente do meu objetivo principal e único, ou seja, o de melhor
avaliação dos candidatos, selecionando, honestamente, os que
convenciam ser os melhores, Até os pedidos de amigos, ou mesmo de
colegas funcionários da empresa, para favorecer este ou aquele
candidato, eram sempre desconsiderados.
Muitas jovens, já haviam sentado naquela cadeira. Algumas mais
bonitas e até mais charmosas. É deveras difícil de se ignorar e
mesmo de fugir dos encantos femininos. O apelo sexual está presente
em tudo, principalmente na minha condição de elemento
preponderante para a admissão de emprego. Já resisti, inúmeras
vezes, a convites subjetivos e até explícitos, para encontros
íntimos, em troca de favorecimento. Minha recusa sistemática em
aceitar tais vantagens, já me granjeou a fama de puritano; de
durão e até de outras, qualidades mais "pejorativas". Eu
já havia alcançado o tempo de serviço para a merecida
aposentadoria. O pecúlio da previdência oficial, somados aos
rendimentos dos planos previdenciários particulares, resultava em
valores mais ou menos semelhantes aos atualmente percebidos. O
motivo do adiamento, sempre constante, do meu requerimento à
aposentadoria, era sem dúvida, ao temor da inatividade e,
principalmente, devido ao meu sádico prazer de sentir minha
importância, quase onipotente, a decidir sobre as aspirações e o
futuro de tanta gente.
Não sou nenhum santo. Casado a mais de vinte e cinco anos e pai de
três filhos, já tive meus escorregões matrimoniais. Porém, nada
de envolvimento emocional de relevância a ponto de ameaçar meu
casamento. Foram apenas aventuras passageiras, de parceria com
mulheres, absolutamente sem compromissos e que apenas satisfizeram o
meu ego masculino.
Mas nada além disso. Nunca me arrisquei a comprometimentos
emocionais, que pudessem causar qualquer dano à estabilidade do meu
casamento.
E permanecemos assim por momentos, a nos fitar fixamente, em
completo e comprometedor silêncio. Ainda que, meio constrangido e
tentando desmanchar o clima perigoso que nos envolvia, quebrei,
repentinamente, a cumplicidade do silencio e desajeitado, passei a
explicar minha técnica em entrevistas com candidatos à admissão.
Método por mim elaborado e ainda em fase de aperfeiçoamento, que
consistia em não fazer pergunta alguma ao entrevistado. Ele deveria
falar, livremente e sem qualquer interrupção, sobre suas
pretensões salariais, planos de carreira, em como nos conheceu,
porque nos escolheu, enfim, sobre tudo que lhe viesse à cabeça.
Mesmo sobre assuntos, que no seu entender, lhe parecessem
aleatórios. A principal finalidade do método, era a de deixar o
candidato completamente à vontade, sem que perguntas, mal
dirigidas, turvassem seu raciocínio e assim, provocasse a
involuntária omissão de qualquer informação importante, para uma
perfeita e competente avaliação. Perguntas imprescindíveis, por
certo, seriam formuladas ao final da entrevista.
Ante sua resposta afirmativa, liguei o gravador e ela começou a
falar.
Seus lábios carnudos, em movimentos graciosos, pronunciavam as
palavras com suavidade musical.
Era uma graça. Os vocábulos,
empregados com inteligência, revelavam uma cultura gramatical
invejável. A expressão do seu rosto e principalmente a dos seus
olhos, pareciam relegar as palavras a um segundo plano,
transformando-as, simplesmente, em meros acessórios da
comunicação.
A questão sobre pretensões salariais, ela sabiamente, submetia-se
aos padrões da empresa e suas aspirações de carreira, relegava ao
futuro. Pretendia retomar os estudos, prestar vestibular e cursar
faculdade da área clássica e se formar em Direito ou Filosofia.
Aí então, pensaria bem melhor no assunto e traçaria suas
diretrizes.
Por vezes, meigamente, seus olhos fitavam os meus, parecendo indagar
qual o grau de aprovação, que eu lhe estaria dando, na avaliação
das suas palavras.
Eu estava cada vez mais enfeitiçado. Imaginava-me envolto por
aqueles braços brancos, trocando caricias pecaminosas, rolando
sobre os lençóis, em alguma macia cama de motel. Minha atração
por essa garota excedia em muito, o simples desejo sexual.
Tratava-se de algo extremamente sério e como tal, deveria ser
encarado, analisado e tratado com a devida importância.
E se o interesse por ela demonstrado no inicio, não passasse,
apenas de uma suposição tola, criada na minha cabeça, como o
lendário último canto do cisne? Afinal, quase trinta anos de
diferença de idade, fazem pressupor a inexistência de qualquer
interesse romântico. E se eu me atrevesse expor o que estava
sentindo, ou ainda, se num gesto de ousadia, arriscasse algum
contacto físico. Seria pedofilia? Não creio. Ela não é tão
jovem assim. E o assédio sexual, exercido em função de cargo
superior?
Fatalmente, isso seria caracterizado por crime grave, até hediondo,
principalmente se cometido contra pessoas dependentes da autoridade
hierárquica ou superior do autor. Até um presidente, quase fora
deposto por esse crime.
E a repercussão, que por certo, se ecoaria em todas as camadas
sociais. E a família, tanto a minha quanto à dela, como reagiriam?
Na minha imaginação, eu já me via na tela de um telejornal,
algemado e ladeado por policiais, que me seguravam numa ridícula
preocupação pela minha eminente fuga. O apresentador informava que
a Delegacia de Crimes Contra a Mulher, através de sua delegada
titular, já havia encaminhado oficio a Interpol, solicitando
informações sobre a possível ligação do criminoso, com uma rede
internacional, conhecida como "Sexo Turismo" e também
"Sexo Executivo" que atua nos mais importantes hotéis, no
mundo inteiro. E as manchetes sensacionalistas: "Chefe de
Pessoal de importante empresa, assediava, sexualmente, jovens
candidatas a emprego, durante entrevistas em sala fechada". E
ainda mais, "Policia investiga a ligação do acusado com Gang
internacional do Sexo". Um horror.
Em que situação, minha outonal intenção romântica, fora me
conduzir de forma tão patética. Estava completamente arrasado.
Suando muito, apesar da refrigeração e um tanto perdido nessas
conjecturas, dei por encerrada a entrevista. Agradeci, em nome da
empresa, a atenção dedicada e elogiando muito o seu ótimo
desempenho, despedi-me, polidamente e amargamente dispensei a moça.
Infelizmente, a falta de experiência anterior era fator
indispensável ao cargo, hoje alvo principal da seleção. Porém,
sua entrevista foi considerada de excelente qualidade, bem como suas
aptidões muito apreciadas. Estava tudo devidamente registrado, e
oportunamente, a empresa a convocaria para nova seleção e até
para admissão imediata. Foram as lacônicas explicações.
Assim que ela se retirou, trêmulo e ainda bastante emocionado,
comecei a compilar os documentos, relativos ao requerimento da minha
aposentadoria.
Estava com os olhos marejados...
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