Terceira Idade
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Alterações Dentárias

É curioso observar que, todas as vezes que se relaciona dentição com a idade, a maioria da população associa imediatamente a velhice com a falta de dentes. Tal fato se propagou de tal maneira que se torna difícil desmistificá-lo.

Primeiramente, é importante frisar que o edentulismo, ou seja, a ausência de dentes, não tem relação alguma com a idade. Não é conseqüência do envelhecimento como alguns chegam a pensar. A perda de dentes relaciona-se com a precariedade da saúde bucal, traumatismos, doenças como a cárie e a doença periodontal dentre outros fatores. Portanto, indivíduos que estão livres destes fatores, consequentemente conservarão por mais tempo seus dentes naturais independente da sua faixa etária de vida.

O edentulismo varia entre as raças e entre os povos de diferentes países. Nova Zelândia, Reino Unido e até mesmo a Suécia, país considerado altamente desenvolvido onde as pessoas têm uma boa assistência de saúde por parte do governo, apresentam elevados índices de edentulismo entre os idosos. 

Uma pesquisa realizada por Steele et al (1996) com pacientes idosos em 1996 nos Estados Unidos revelou que a maioria dos entrevistados considerava perder os dentes é uma conseqüência natural do envelhecimento humano. Para os pesquisadores da área de saúde bucal, são afirmações deste tipo que desencorajam o próprio paciente a cuidar melhor da sua saúde bucal, pois ao pensar que fatalmente irá perder seus dentes com o decorrer da idade, porque se preocupará em tratá-los? 

As perdas dentárias acarretam sérios problemas. Afetam a mastigação e a digestão de alimentos (dificultando cortá-los, triturá-los e moê-los) acabando por sobrecarregar o estômago e o intestino podendo causar problemas mais sérios, tipo uma úlcera gástrica, como afirma Moriguchi (1992). 
Afetam ainda a fonação, levando a uma dificuldade em pronunciar determinadas letras e sílabas das palavras. Por fim, comprometem a estética do indivíduo. Uma pessoa que não tem dentes tem comprometida a sua aparência pessoal e tal fato acaba por afetar a sua auto-estima. É bastante comum que os portadores de próteses totais tenham vergonha de serem vistos sem as mesmas e de mencionar que as usam. 

Os dentes humanos sofrem ainda, com o passar da idade biológica, uma série de outras alterações fisiológicas e patológicas. Quanto ao seu alinhamento, podem sofrer desvios para frente ou para os lados, ou até mesmo inclinar, principalmente quando se perdeu o dente próximo ou o seu antagonista. No que diz respeito à coloração observamos um escurecimento do esmalte dental devido às alterações sofridas pelos tecidos internos do dentes, principalmente a dentina. Uma mudança fisiológica bastante observada é o desaparecimento parcial das cúspides dentais com modificação em seus bordos cortantes decorrente do processo de atrição dental, que se desenvolve durante a mastigação com o contato de um dente com o seu antagonista. A atrição pode ser agravada pelo hábito parafuncional de ranger os dentes, conhecido como Bruxismo ou Briquismo e leva ao "encurtamento", por assim dizer, dos dentes. Com o passar do tempo e a persistência do hábito, é comum observar o desgaste e queda de restaurações. Ocorre ainda uma calcificação da dentina com atresia da câmara pulpar e dos canais radiculares, afetando a vascularização e a inervação do elemento dental. 

Nos idosos, a doença cárie se apresenta da mesma forma que nas pessoas de outras faixas etárias, mas a chamada cárie de raiz, que acomete a região do colo dentário exposto por problemas periodontais, notadamente se faz mais comum entre pessoas com mais de sessenta anos. 

Quanto à orientação de higiene bucal, esta deve ser feita em qualquer época da vida. Idosos que receberam este tipo de orientação possuem mais dentes naturais e em melhor estado de conservação do que aqueles que nunca foram orientados. Uma pesquisa publicada em 1982 pelo Association Reports apontava o fato de que, em um asilo norte americano, dos 3.247 idosos internos, 70% não possuíam dentes naturais e 82.5% necessitavam de algum tipo de tratamento odontológico. Ambos os índices aqui citados são preocupantes em termos de saúde bucal e retratam o quadro que infelizmente temos atualmente no mundo todo. 

Com o avançar da idade e diante de algumas doenças sistêmicas que dificultam a coordenação motora - artrite, artrose, derrame cerebral - o idosos tem mais dificuldade em realizar corretamente a escovação dental diária e tende a acumular maior quantidade de placa e cálculo dentário. Idosos são mais propensos a infecções e, portanto, aconselha-se os portadores de próteses a não dormirem com as mesmas, pois isto facilitaria a contaminação por fungos, como a Cândida albicans, além de aumentar tanto o risco de surgimento de lesões de tecido mole oriundas de traumas quanto à halitose. Todas as medidas de higiene bucal - escovação, uso de fio dental, flúor - se aplicam aos idosos também. Ao contrário do que muitos pensam, não é só a presença de dentes que torna o indivíduo um paciente de interesse para a odontologia. Mesmo que não haja mais dentes, as visitas ao dentista devem continuar, visto que a manutenção da integridade dos tecidos moles é bastante importante, pois é nele que muitas patologias, inclusive as neoplasias, podem a vir se desenvolver. Verificar o estado de asseio e a conservação das próteses é muito importante bem como confeccioná-las somente com profissionais capacitados para tanto. 

A presença de doenças sistêmicas como a Hipertensão, o Diabetes dentre outras não representam nenhum impedimento para a realização de qualquer tratamento odontológico. Todas as informações a respeito das mesmas devem ser repassadas ao dentista logo na primeira consulta, incluindo as informações sobre as medicações que estejam sendo utilizadas, que são passíveis de terem efeitos sobre as estruturas bucais - causando a secura bucal, por exemplo - de modo que o profissional trace um plano de tratamento seguro e adequado para este paciente. 

Como se pode ver, o idoso também é um paciente de interesse para a odontologia, que dedica a ele um capítulo especial, a Odontogeriatria. Fora às alterações dentais aqui mencionas, existem muitas outras, tanto fisiológicas quanto patológicas, que ocorrem na cavidade bucal com o envelhecimento humano e que são tema de estudos por parte dos pesquisadores. Os cuidados com a sua saúde bucal devem ser tomados de imediato e sempre, de modo a melhorar a sua qualidade de vida e proporcionar aos que hoje se encontram ou caminha para a chamada "melhor idade" motivos parar sorrir sempre. 


Dra. Kátia Maria Martins Veloso 
Cirurgiã Dentista -UFMA
Mestre em Estomatologia -UFPB 
E-mail : kmmv@bol.com.br 

Bibliografia Consultada: 

1. Association Reports. Oral health status of Vermont nursing home residents. J. Am. dent. ass. Chicago, v.104, p.68-69, Jan. 1982. 

2. Moriguchi, Y. Aspectos geriátricos no atendimento odontológico. Odont.mod. Rio de Janeiro, v.19, n.4, p.11-13, jul./ago.1992. 

3. Steele, J.G., Walls, A ., Ayatolahi, S., Murray, J. Dental attitudes and behaviour among a sample of dentate older adults from three english communities. Brit.dent.J. London, v.180, n.4, p.131-136, Feb.1996.
 

As dicas deste portal não dispensam a consulta a um especialista ou acompanhamento de um médico.  Queremos apenas ser fonte de orientação e estudo.

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