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Os dados clínicos e epidemiológicos levantados até o momento, nos mais diversos países, confirmam o alto grau de proteção proporcionado pela camisinha. Contudo, essas evidências ainda estão praticamente circunscritas aos segmentos populacionais mais "cultos" e/ou especializados. Para a grande maioria da população, cuja percepção sobre a AIDS também é mitificada, mágica, sobretudo com relação ao HIV, ainda prevalecem algumas preocupações, comumente levantadas tanto por usuário inconstantes ou pontenciais quanto por aqueles que desejam ver a promoção do uso do preservativo substituída por alguma outra estratégia de saúde pública. A este respeito, as principais preocupações são:
Permeabilidade
/ Vazamento da camisinha;
Possibilidade de Rompimento Durante a Relação Sexual;
Possibilidade de a Camisinha Escorregar.
Permeabilidade / Vazamento da Camisinha
Uma grande preocupação diz respeito ao fato de a camisinha - em decorrência da própria matéria-prima utilizada em sua fabricação, o látex - poder conter poros que permitam a passagem de microorganismos causadores de doenças. Outra possibilidade que se levanta é a possível existência de orifícios, originados no próprio processo de produção. Claro está que, neste caso, o mais preocupante é a possibilidade de passagem do HIV, que é cerca de 30 vezes menor do que a cabeça de um espermatozóide humano. Enquanto a cabeça do espermatozóide mede cerca de 3 microns (3 mm = 0,003 mm), o HIV possui um diâmetro de apenas 0,1 mm. Os agentes patológicos causadores de outras
DST, como gonorréia, herpes simples e sífilis, também são muito menores que a cabeça de um espermatozóide humano.
Estas hipóteses, entretanto, não se confirmam em testes de laboratório. Em duas importantes pesquisas, buscando detectar a ocorrência de poros naturais nas camisinhas, por meio de exames microscópicos, chegaram a conclusões muito encorajadoras. Numa delas, realizada pelo National Institute of Health
(NIH) dos Estados Unidos, utilizou-se um microscópio eletrônico para ampliar os preservativos duas mil vezes
(magnification x 2.000) e nenhum poro foi detectado, mesmo quando os
preservativos foram esticados. Um outro estudo, realizado em 1989 por The Consumers
Union, demonstrou que nenhuma das 40 principais marcas de preservativos mais utilizadas no mundo apresentavam poros. Nestes testes, também foi empregada a microscopia
eletrônicam, mas com a magnificação x 30.000 (na qual é possível observar partículas do tamanho do HIV) dos preservativos esticados.
Também já foram realizados diversos ensaios in vitro, com o objetivo de registrar a possível passagem de um série de microorganismos (incluindo o HIV) através da membrana de látex do preservativo,
o que não se confirmou em nenhum dos ensaios. Estes testes simularam os esforços
mecânicos a que os preservativos são submetidos durante a relação sexual, confirmando-se que o HIV, o vírus do herpes simples hepatite B, o citomegalovírus e a Chlamydia trachomatis não conseguem ultrapassar a membrana de um preservativo intacto, mesmo após a aplicação de diversos e rigorosos estímulos mecânicos.
Por outro lado, um outro estudo de laboratório, relatado em 1992, detectou poros e vazamentos em 29 das 89 amostras de preservativos testados. As amostras foram colhidas aleatoriamente de lotes diversos e os testes empregaram microesfera de dimensões compatíveis com as do HIV, mas em concentração até 100 vezes maiores do que a do HIV no sêmen humano. Além disso, no interior do preservativo, as microesferas foram submetidas a condições equivalente a mais de dez minutos de atividade
coital, após a ajaculação. Os resultados
demonstram que, mesmo nos casos em que a resistência dos preservativos mostrou-se menor, houve vazamento sempre inferiores a 0,01% do volume total. Com base nisto, os autores do estudo concluíram que "as camisinhas - mesmo nos pior dos casos - oferecem 10.000 vezes mais proteção contra o HIV do que sua eventual não-utilização". Esta conclusão é consistente com a de um outro estudo, em que foi empregada a mesma metodologia.
Rompimento da Camisinha
Quanto à possibilidade de rompimento da camisinha, durante a relação sexual, as pesquisas já realizadas levantam índices bastante diferenciados. A grande maioria, porém, não chega a 5% do total dos preservativos utilizados. Nos Estados Unidos, a já referida pesquisa
realizada no The Consumer Union -junto a 3.300 consumidores adultos - detectou índices de rompimento da camisinha inferior a 1%. Um outro estudo, junto a 1.800 homens adultos (faixa etária de 25 a 39 anos) de oito países (República Dominicana, México, Estados Unidos, Gana, Quênia,
Mali, Nepal e Sri Lanka), chegou a um índice de rompimento da ordem de 3,8% a 13,3%, sendo que mais de 70% dos entrevistados experimentaram índices de rompimento abaixo de 5% e mais de 90%, índices inferiores a 7,5% do total de preservativos utilizados.
Todos estes índices são, relativamente, elevados e poderiam causar sérias preocupações entre os usuários consistentes da camisinha. Todavia, os autores do estudo sustentam que, mesmo nos países em que foram relatadas as mais altas taxas de rompimento, o preservativo continua sendo considerado - pelos próprios entrevistados - como "um meio eficaz de proteção não apenas contra a gravidez não desejada, mas principalmente contra a AIDS". Os problemas de rompimento são atribuídos muito mais ao uso incorreto, devido à inexperiência com o preservativo, do que ao preservativo em si. De fato, outros estudos mostram evidências de
inter-relações entre o rompimento do preservativo , procedimentos inadequados - uso de lubrificantes que deterioram o látex, uso infrequente e reutilização da camisinha - e fatores específicos, entre os quais, duração e intensidade do ato sexual e atividade coital pós-ejaculação. Outro fator que pode contribuir para o rompimento do preservativo é o tipo de relação sexual; pesquisas que envolveram diferentes práticas sexuais demonstraram que o coito anal, por exemplo, envolve risco de rompimento muito mais alto do que o coito vaginal.
De qualquer modo, nem todos os tipos de rompimento implicam um mesmo índice de risco. É improvável que um pequeno orifício na base do preservativo, por exemplo, represente o mesmo risco de exposição - seja a gravidez não desejada ou aos microorganismos que causam as
DST, inclusive o HIV - que um buraco na ponta. Em, pelo menos, três estudos nos quais foi documentada a localização dos rompimentos, quase 30% destes ocorrem na base do preservativo. Além disso, os casos de rompimento que ocorrem no momento da colocação ou, até mesmo, antes da ejaculação envolve menor risco de exposição as doenças (inclusive porque, nesses casos, ainda é possível trocar a camisinha). A este respeito, diversas pesquisas constataram que 25% a 70% dos casos de rompimento ocorrem no momento da colocação ou retirada da camisinha. Finalmente, um estudo de monitoramento por mais de 24 meses, detectou um índice de rompimento da ordem de 7%, sendo que mais da metade destes rompimentos ocorria no momento de colocação ou retirada do preservativo.
Possibilidade da Camisinha Escorregar
A terceira e última grande preocupação quanto à eficácia da camisinha na prevenção das DST e, sobretudo da AIDS, diz respeito à possibilidade de o preservativo deslizar um pouco (slip down) ou, até mesmo, de escorregar e sair (slip off) do pênis, durante o ato sexual. Quanto a isto, os resultados das pesquisas mais
recentes são bastante diversos. Steiner e cols., relatados de "deslizamento" (slip down) que variaram de 0,0% (em Gana) a 9,3% (no Quênia) do total de preservativos utilizados, sendo que o índice médio dos oitos países pesquisados foi de 3,03%. Por sua vez, Richters e col.
relatam um índice médio de "escorregamento e queda" (slip off) do preservativo, durante a relação sexual, de 3,1% de todos os preservativos utilizados.
Certamente, esses índices de escorregamento ou queda da camisinha, seja durante o uso efetivo em atividade coital ou nos momentos da colocação ou retirada do preservativo, não estão tão bem documentados como os índices de
rompimento. Além disso, em vários estudos, pode-se notar diferenças e/ou
impressões quanto ao significado de desligar ou escorregar. Por exemplo, desligou em que direção, para baixo ou para cima? O preservativo apenas deslocou-se um pouco ou chegou a sair do pênis? Também se observa que, com
freqüência, não se identifica o momento em que o fato ocorreu, se durante, antes ou após o ato sexual.
Sem dúvida, estes são fatores que precisam ser melhor estudados, vistos que podem estar influenciando negativamente a percepção que se tem da eficácia ou não do uso preservativo para a prevenção das DST e, principalmente da AIDS de transmissão sexual. Neste sentido, os dados levantados nos estudos já realizados permitem concluir que uma informação e orientação mais precisa a respeito da eficácia do preservativo, quanto usado de maneira correta e consistente, poderá contribuir para minimizar os problemas de escorregamento, queda e/ou rompimento do preservativo .
E, com isto, também seria melhorada a percepção que se tem do produto, abrindo caminho para maior uso e maior proteção da população.
Fonte: Ministério da Saúde, 1997
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